terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Acertos



As palavras certas nunca são aquelas que quero ouvir. Nem sequer são palavras bonitas, no sentido do que idilicamente se pode associar à 'estética dialogante'. As palavras certas são aquelas que me fazem querer ouvir mais. São palavras que sem voluntarismos me fazem calar. Palavras que, por um instante que seja, me deixam ficar sem palavras. São palavras que me soam raras a ponto de apertarem-me saudades de as ouvir. E que saudades já tinha eu de ouvir as palavras de alguém capaz de me fazer emudecer!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Electricidade





Começaram por dizer que ando a tomar coisas. Coisas que acusam-me de, egoisticamente, não partilhar com as amigas. Depois desataram a dizer que ando assim por causa do choque. Não o choque térmico das manhãs de Inverno, mas um outro que me apanhou desprevenida na época das festas. Passo a contar: em vésperas do último Natal estive a um segundo (na minha atemorizada cronometragem) de morrer electrocutada numa operação de limpeza. Agora até pode soar a um certo exagero, mas juro que naqueles segundos, em que a torradeira me confundiu com a corrente, vi a minha vida cair fulminada.


Lembro-me também de dar um berro e de pensar na inutilidade daquele que receei ser o meu último esforço: não estou a ver a minha desconhecida vizinhança a ouvir no meu aturdido grito um pedido de SOS. Já refeita do choque (ainda não sei como me esqueci de desligar a torradeira da tomada), verifiquei a posse de todas a minhas faculdades vitais e antecipei os potenciais danos que aquela experiência ainda me poderia trazer. Imaginei então uma súbita subtracção de neurónios, fios de cabelo permanentemente espetados e graves distúrbios comportamentais.

Entre um e outro devaneio arrepiante, lá acabei por retomar a lide doméstica, ainda ensombrada pelo terrível destino que felizmente não me estava reservado. Dias mais tarde, só para reforçar as minhas graças à vida, questionei a enfermeira de plantão (estimada Gi) sobre o pior (além do óbvio perecer) que me poderia ter acontecido. Ouvi então um relato de tal forma tenebroso que roguei pela sua interrupção. «Nem quero pensar nos estragos que me vão aqui dentro», reflecti de mim para mim, antes mesmo de terminar a dissertação da Gi.


Minimamente descansada por não ter experimentado nenhum dos sintomas que me deixaram petrificada, desliguei-me daquele episódio e deixei que estreassem novas histórias na minha vida. Andava eu perfeitamente abstraída dessa ocorrência, quando alguém se lembra de dizer-me isto: «Estás mais eléctrica do que o habitual. Já pensaste que pode ser do choque que levaste?». Agora que penso nisso, e tendo em conta que já me pediram instruções para atingir o mesmo choque, começo a ponderar especializar-me em central bioeléctrica. A EDP que se cuide!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mau acordar



Custa-me horrores sair da cama enquanto ouço a chuva cair. Ter de abandonar o edredão para levar um choque térmico, e ainda entorpecida, sondar o dia à procura de inspiração para bem vestir. Custa-me mesmo muito! Mas apesar de todo o custo, orgulho-me de, na maioria dos despertares, jogar a titular na equipa dos que acordam de bem com a vida. Sobretudo em dias como o de hoje, em que me deparo com uma vista panorâmica de festas para o fim-de-semana. Dia de boa disposição, portanto. Portanto acordei saltitante ainda que sem saber a quantas andava – hoje precisei de uns largos segundos (que me pareceram horas) para perceber que a semana de labuta ainda exigia uma jornada.


Satisfeita da minha vida pré-fim-de-semana e já depois de cumprido o primeiro xixi do dia, deparo-me com isto: secura. Nem uma gota de água. Nada. Torneiras sequíssimas, tal como as tinha deixado algumas horas atrás, antes de ir deitar-me no cansaço da madrugada. Daí para a dúvida da manhã nem foi preciso um passo: «Será que me esqueci de pagar a água?» Numa caçada desesperada pelas últimas facturas, suspiro de alívio ao ver os papéis eliminarem a minha inquietação (desnecessária se já tivesse aderido ao débito directo), mas fico ainda mais intrigada com a situação.


Cinco horas sem água? Então penso que àquela hora (antes das 9 horas) ninguém me vai atender, mas sou surpreendida logo ao segundo número discado: «Rebentou uma conduta nessa zona e não conseguimos prever quando é que a situação estará normalizada». Ainda incrédula, embora já a atirar para o reivindicativo, ouço a funcionária pedir-me paciência. «Pois, que remédio», deixo escapar o resmungo, maldizendo o facto de a paciência não constituir sinónimo de higiene. Agarro-me então à garrafa de água de 33 cl que religiosamente tenho à cabeceira, e aproveito o que sobrou dos goles ensonados para escovar os dentes e borrifar a cara.


Sem tirar o pijama, estrategicamente coberto por umas calças de ganga e um casaco, saio para o supermercado com a missão de encher um balde de banho. Cinco litros de água depois – conseguidos a um preço (0,60€) que me despertou para os roubos de que tenho sido vítima por esse mundo de cafés afora – completo o meu arcaico plano de limpeza: fervo cerca de 1,5l de água, acrescento-lhe a olho a quantidade que me parece indicada para sentir uma temperatura aceitável, e delicio-me com o meu prémio. Poucas vezes um banho tão curto me soube tão bem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Tudo Boas Doncellas *



Poderia ser este o título cinematográfico de mais um ano de brilhantes interpretações nos palcos das doncellas. Mas se assim fosse, dificilmente transmitiríamos o alcance das nossas aventuras e desventuras. Por isso, o melhor a fazer é distribuir os créditos de 2008 por nove títulos: um por cada doncella. Bora então reviver as nossas impagáveis comédias (A Fábrica das Loucuras); recuperar alguns dos nossos convulsivos romances (Palpitações); relembrar os terrores de certos suspenses de género (Os suspeitos do Costume); e também recapitular os dramas do nosso amadurecimento (Dias de tempestade).

Baiana
Boa noite e boa sorte
Sem complicações. Chegar, sondar, abreviar o comunicar e… já está. Da boa noite das apresentações passa-se à boa sorte das despedidas. No fruir de cada momento, bebem-se excessos e testa-se o poder de atracções físicas, por vezes armadilhadas com perigosas explosões químicas. No cruzamento de insondáveis sensações, ultrapassam-se mesmo velhos ‘sinais de proibição’, embarcando-se numa inédita desorientação por betos, bebés, gente de cabeça ruça e até um casado de estado. E como a época passada foi de flashes, podemos esperar novas revelações?

Carina
O amor acontece
Algures à deriva de ligações incontáveis deu-se o programado encontro. Não teve o excesso de velocidade típico dos ‘pintas’ da vida, sucessivamente desencantados de uma incerta comunidade virtual. Também não teve os desvios de percurso saracoteados com professores e colegas de ginásio. Nem sequer teve as colisões frontais precipitadas à boleia de moranguitos. Um atrás do outro, por vezes dois e até sete ao mesmo tempo, ninguém sabe precisar quantos acidentes foram. Mas é evidente que o amor aconteceu. Olá Sra. Vidal, adeus Biatx?

Diana
O espírito do amor

Os sentimentos transbordam-lhe por todos os poros. Com uma força e uma intensidade contagiantes, semeiam tempestades afectivas, deixando corações em suspenso. Um coach do lado de cá, outro coach do lado de lá; um performer das contas do lado de lá, um intérprete de emoções do lado de cá. Neste pulsar titubeante de dois para cá, dois para lá, o ‘jogo’ vai decorrendo ao ritmo dos grandes desafios. Sem um vencedor incontestável à vista, com algumas rasteiras do acaso à mistura, e cobranças de penalidades fora do seu tempo. Temos táctica para afinar a pontaria do amor?

Lara
Terminal de aeroporto
Malas aviadas, check-in despachado, chamada para o embarque… coração bem lá no alto. Bate leve, levemente, como quem se acostumou a descobrir em novos fusos horários novas paixões? Ele é o belga que fala o português no sotaque verde-amarelo, ele é o inglês que fala espanhol no sotaque castelhano, ele é uma natural afinidade com ‘sociedades’ de outras nações. Na rota do que parece ser uma edição de autor dos popularizados jogos sem fronteiras, desvio ainda para um achado alemão num jantar lisboeta de nutrição asiática. Onde fica o próximo destino?

Mónica
Branco não sabe meter

Peitaça inchada, coxa grossa, músculos irresistivelmente palpáveis…O negão é que sabe meter o pandeiro no sítio certo, e, com a sua música, deixar a negra ex-biatx bem assanhada. Pode ser o securitas da periferia laboral, pode ser o pé rapado do rendimento social de inserção, ou pode até ser um insuspeito pai de família, empenhado em desarmar a malandragem com um generoso ramo de flores. Se for negão (atenção que ser negro não chega) a negra gosta. Se tiver um nome a sugerir dificuldade (hard quê?) melhor ainda porque a negra é Hardcore…Tão hardcore que já teve negão incapaz de acompanhar a brincadeira. Devemos temer novas baixas performances?

Paulinha
Febre de sábado à noite

Sábado à noite? Não, que este não é o filme do John Travolta. Nesta história a febre não olha a calendários nem respeita horários. Nesta história a febre é permanente, e as altas temperaturas incendeiam até mesmo os dias de trabalho. Basta uma daquelas sms perturbantes, planos palpitantes para jantar, ou visitas desestabilizadoras para um e mais outro cafezinho. E quando se pensa que o estado febril atingiu o seu auge, eis que se diagnosticam novos sintomas. Pode ser um encontro imediato numa casa de banho à disposição, uma União indigna de primos ou o extravio de mais um telemóvel. Ainda há graus de febre para escalar?

Pipa
Duplo impacto

Águas passadas podem não mover moinhos, mas lá que balançam corações… isso balançam. E o que melhor do que o chocolate para compensar o desequilíbrio de batimentos cardíacos? Mesmo com todos os riscos de se guardar um gosto mais amargo do que doce, gosto pior seria o de ver passar predestinados reencontros sem sondar novas oportunidades. Por isso um brinde ao destemor. Outro brinde à ousadia. Mais um à determinação. E tantos outros aos reencontros, que representam sempre pelo menos dois sinais de vida. Haverá duas voltas sem três?

Rita
Agarrem essa loira
O gingado de ancas pegou-lhe a fama de Shakira do Oeste, terra farta em ondas de conturbadas paixões. Mas os proveitos perseguem-lhe muito além do Oeste, engenho de múltiplas aproximações labiais. Beijinho daqui a Norte, beijo dali a Sul, amasso acolá a Este, e a programação das festas vai demarcando sucessivas respirações boca a boca. Tantas que, num mesmo agito, vivido nos recantos da animação figueirense, os vorazes lábios deixaram-se perder por duas bocas, perigosamente entrosadas em delicadas fugas a um flagrante delito. Seguem-se novos duelos à descoberta de um príncipe?

Vera
Uma noite aconteceu
Artifício de Ano Novo ou não, diz quem testemunhou que o arranque pegou fogo. Começou a esquentar num frenético jogo de mãos direitas, conduzido à combustão nas proximidades de uma lareira. Já com as chamas em perfeita incandescência, o fogo continuou a alastrar, propagando-se a uma garagem livre de olhares gulosos. Apesar do inusitado daquela ebulição, sobretudo pela influência de persistentes ventos insulares, o fogo aguentou meses sem circunscrever. Mas acabou extinto com a mesma rapidez que o fez deflagrar, incapaz de resistir aos alertas tempestuosos vindos dos Açores. Com tantos encontrões do destino, será que o arquipélago e o continente seguirão autónomos?

*Texto retirado do argumento estreado no último sábado, cujos créditos já foram atribuídos no post anterior

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Prémios Doncellas 2008



Encontrámo-lo nas férias e acabámos conquistadas logo ao primeiro olhar. Doncellas, dizia ele. Doncellas?, questionávamos nós. Sim! Doncellas soava deliciosamente irónico. Um ou dois euros depois, lá estava ele prontíssimo para seguir viagem connosco.


Ele é um diário invulgar, nós somos um já aqui apresentado ‘livro’ de amizades cruzadas. Ele marcou as mancadas verbais de mais um dos nossos concorridos verões, e nós apimentámos o significado da palavra Doncellas à medida dos nossos amores e desamores.


E foi à medida desses amores e desamores que nasceram os Prémios Doncellas. A edição de estreia - apresentada pela dupla maravilha Gi e Sóninha - viveu-se no último fim-de-semana, e coroou-se com a atribuição de cinco troféus disputados por nove Doncellas - Baiana, Carina, Diana (presente via web), Lara, Mónica, Paulinha, Pipa, Rita e Vera.


Votos contados e filme do ano visionado (argumento by Baiana, produção by Paulinha, bastidores by Carina e realização by Vera), aplaudimos, reforçadas pela Sónita, a eleição de uma mão cheia de Doncellas:


Carina, na categoria Apanha-me se puderes
Rita, na categoria Lábios de íman
Baiana, na categoria Ovo Kinder
Paulinha, na categoria Operação Non Stop
Vera
, na categoria A verdade da mentira


Nota: Por questões de confidencialidade, a categorias foram devidamente codificadas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

100 anos, no mínimo




Conhecia o pormenor dos joelhos mas desconhecia a data. Agora já sei que ele pediu-lhe em casamento num Dia dos Namorados, comemorado com quase duas semanas de atraso. Minha reacção imediata: «28 de Fevereiro? Esse é o dia de aniversário do Benfica!». Invejando a feliz coincidência - melhor só mesmo casar a 28 de Fevereiro no próprio Estádio da Luz -, chego a uma ainda mais feliz conclusão: temos casamento para durar, no mínimo, o tempo de uma Gloriosa História. Mais coisa, menos coisa, 100 anos estão garantidos!


P.S.: Já aqui tinha chamado a atenção para a importância da data histórica (vide 12 passos a caminho do melhor 2009 de sempre), mas nunca é demais relembrar: comemorai o 28 de Fevereiro de 1904.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sabe sempre a pouco

A ocasião traz o jantar. Num reencontro muito ansiado, em data electronicamente conciliada, o prato principal serve-se dos ingredientes das nossas vidas. Um casamento de dar vontade de casar (ai, que orgulho); um e outro entendimento de dar muito que falar (haja línguas por descobrir); um relacionamento de dar vontade de abençoar (já comia bolo outra vez); e um e outro entretenimento de dar muito o que pensar (ena, que isto tem sido um rodízio).


Genuinamente bem temperadas, as especialidades das nossas vidas misturam-se ao gosto das experiências que vamos partilhando, conservando sempre o mais especial dos sabores: aquele que só se prova com o coração. Sem prazo nem espaço de validade - porque pouco importa o tempo e a geografia das físicas distâncias - a nossa receita aprimora-se para gáudio das nossas delícias.


Mas desta, como da última vez, faltou um insubstituível acompanhamento da nossa ementa, apenas compensado pelo doce sabor de boas lembranças. Desta, como da última vez, faltou tempo para mastigar todas as últimas refeições, e diagnosticar sem engasgar algumas presumidas indigestões. Desta, como da última vez, o tempo de um bom jantar - que se alongou num cear - não me conseguiu matar a já larga fome de confraternizar. Desta, como da última vez, o tempo de um delicioso jantar abriu-me ainda mais o apetite para novos manjares. Todos de bom e relacional proveito.