terça-feira, 17 de março de 2009

Amigos do alheio


Logo na infância, programam-nos para não cair em tentação: «Ai, que isso é muito feio!». Mas como ainda não inventaram um software poderoso a ponto de comandar o hardware humano, volta não volta o povo cai em tentação. «Oops! I dit it again!». Chega mesmo a haver quem se espalhe ao comprido e, com um maior, menor ou nenhum sentimento de culpa, não chega a haver quem esteja livre de reincidir.

Apesar disso, o povo mantém a toada alva-negra, insistindo no clássico duelo do vício contra a virtude. E eu acho mal que assim prevaleça, da mesma forma que acharia bem que cada um assumisse a sua quota parte na sociedade da inveja. Afinal, o que há de errado nisso?

Como quem inveja desde a infância, afianço que de desprezível o meu invejar não tem nada. Pelo contrário, ao invejar a sorte de alguém não só não lhe estou a desejar o mal, como estou a reconhecer-lhe o bem, a ponto de também o desejar para mim. E estou convencida que desejar o bem nunca fez mal a ninguém.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sol de boa dura


Assinalam-me os adeptos do calendário que ele pode destratar-me a saúde, por andar desajustado da sua invernosa estação. Que tem os dias contados, lembram-me os meteorologistas. E eu, por mais consciente que esteja do impacto das subversões climáticas, não consigo deixar de desfrutar desta tropicalização global. Afinal, baralhado que está com tanta poluição e perversão humana, é óbvio que o tempo já não dá tempo para hesitações de época. Por isso, antes que o sol vá brilhar para um genuíno Verão, permito-me simplesmente aproveitar. De havaianas nos pés, corpo despido para um biquíni, paréo espreguiçado na areia…e a prova de que nestes dias em que o Inverno serve-se quente, nada melhor do que sorver os raios de sol até às últimas efervescências.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Distinção do dia*


É das piores coisas que me podem fazer. Aceitarem-me a proposta, adjudicarem-na como a minha empreitada da semana, pressionarem-me para a recolha dos materiais, e, no final, sem a menor das diligências, activarem a implosão de toda a minha obra. Justamente por ser das piores coisas que me podem fazer, ontem estava com uma neura tal que já não me aguentava. Lembrei-me então do desafio matinal da Paulinha: «Logo vamos beber uma caipirinha ao Bairro?». Eu, que por ossadas do ofício até nem sou de saídas à quinta-feira, comecei por duvidar da minha disponibilidade. «22h? Não sei se estarei despachada».


Não sabia, por conta de uma construção de última hora, mas fiquei a saber que a indigesta e súbita demolição permitia-me rever em alta a minha disponibilidade. Foi então que lancei o isco: «Kitties, acho que hoje ia curtir um Lux. Alguém alinha? Pensem que depois só falta um dia de labuta ;-)». Apesar da delícia de apelo, não sobrou quem aceitasse o meu convite. Desconfio mesmo que, por isso, a neura conseguiu bater-me tão forte. Já a roçar o auge da minha irritação, dei por mim a bufar pela saída de acesso à confraternização das caipirinhas. Acerto o programa de escape para as tais 22 horas, mas vejo a neura agravar-se com o atraso da minha companhia das festas.


«Na! Vou mas é para casa»
, repetia eu, receando comprometer a digestão do jantar num compasso de espera potencialmente aziago. Convencida que estava, só me faltava informar a confraria da minha retirada estratégica. Mas, acabadinha de o fazer, constato que a Paulinha lembrou-se de virar contra mim a provocação que fui fazendo durante o dia - a propósito da falta de adesão ao projecto Lux. Como recusei ser o elo mais fraco, lá acabei por trocar o prenunciado adeus pelo olá.


Olá às caipirinhas deslizadas em conversas com o Edulo, a Lôraça e a Paulinha; e olá também à chegada da dupla dinamizadora da minha night, bem aproveitada entre uma festa recheada de models (e que models!) no Silk e uma electrizante passagem pelo Lux (amanhã vais desfilar no Moda Lisboa?). Contabilizadas as saudações, não restou ponta de neura para desestabilizar as minhas danças, trianguladas até ao amanhecer com as animadas movimentações da já saudada dupla - Catarina e Lena - em boa hora descarregada do site de ligações do Edulo. Mais do que justo, portanto, atribuir ao bebé da kisomba o prémio melhor casting na categoria amigas IN.

*já autenticada via SMS

Agora sou eu!



Assim que lhe pus o olhão gordo em cima percebi logo. Depois, para confirmar a minha intuição, chega-me com as criancinhas sem sombra da Patricia. Agora, finalmente, a Notícias TV vem reconhecer a minha razão. O mister dos meus sonhos foi flagrado em clima de paixão com outra que não aquela que lhe foi reservada em matrimónio.

Já não bastava a oferecida da Alexandra tentar atingir o orgasmo com um abraço esfregado ao homem? Agora tenho de aturar beijos grudados de uma ‘amiga’ que insiste em colorir com ele?

Ó Quique! Sim, tu! Olha para mim e lê-me bem isto: à terceira exijo que acertes na minha vez.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Meu valioso blogue




Aqui ninguém me corta os textos. Também não há quem imponha limitações aos meus ângulos, ou insista em barrar a minha queda para os trocadilhos. Aqui posso libertar os meus devaneios metafóricos, e dar o estilo que quiser às figuras que bem entender.

Aqui a minha escrita não tem caracteres e por isso nunca me descaracteriza. Aqui, jamais os meus ápices de criatividade cederão terreno às inconstâncias da actualidade. Aqui, a minha escrita é a expressão mais fiel do meu carácter: respira desligada de preços, concentrando-se ‘apenas’ no meu apreço à composição.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Trocadilho do dia*

Miguel Veloso = Despenteado mental


Digo eu, que não sou de intrigas, que o rapaz abusou da sorte. Então não se estava mesmo a ver que, com o encarnado Benfica do António a correr-lhe nas veias, os elevados índices de exposição ao verde WC acabariam por causar sérios distúrbios?

*ecoado das lagarteiras (buraco onde se escondem os lagartos)

Lembrança activada por um certo apalpão



Ali era tudo em big. Extra-large mesmo. Edifícios, estradas, carros… Hollywood à vista da janela do plenamente estrelado quarto de hotel; o Kodak Theatre ainda antes de virar a esquina; as estrelas dos famosos a assinalarem-me o percurso dos passos; as voltas por Santa Monica; os sets das mais famosas gravações em série; os mundos rosa de Melrose Place e Beverly Hills; os Starbucks como cogumelos…

Tudo tão estonteantemente DAZZLING, que, num certo cruzamento, estive a um carro de perder o controlo dos meus sentidos. Eu, que até ali apenas via nele mais um personagem deslavado da indústria MTV(lev)iana, mumifiquei só de sentir aquele olhar automaticamente reflectido na minha abdução.

Completamente hipnotizada, enquanto esperava pela abertura de um sinal que acabava de fechar, descubro naquele cruzamento – alcançado à sorte de alguns desvios de camone – o poder do tão famoso X-FACTOR. O tal elemento inadjectivável que congrega tudo de bom e mais alguma coisa.

Fixada nele – enquanto ele olhava para mim como quem estranha a ausência de habituais histerismos de idolatria –, senti-me atravessada por um oceano ocular de tamanha profundidade que saí de LA absolutamente love stoned.