sexta-feira, 8 de maio de 2009

Já vi tudo


É maneirinho, sim senhora. Elegante, portátil e de fácil tacto. Fisicamente seria perfeito não fosse ele tão desarrumado. Mas sabendo eu que a perfeição não existe, acabei por lhe dar uma segunda oportunidade. E o que fez ele? Voltou a desarrumar tudo.

Não satisfeito com as gordas amarelas da edição de estreia - «todos querem menos imigrantes» - vem agora engrupir com a lengalenga de que a «polícia garante que a criminalidade aumentou com os estrangeiros».

Nem consigo imaginar o que virá a seguir… sei apenas que, após dois números, varreram-se-me as dúvidas sobre qual será o público-alvo do novo diário: a última vez que o vi estava carregado de tatuagens, vestia-se de escuro e rapava a cabeça.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Aceito propostas de emprego

Mas atenção: não estou a oferecer-me para trabalhar. O que eu quero é comprovar aquilo que tenho observado neste últimos anos de intensivas experiências laborais. E o que é isso?, perguntam os mais desatentos ou os menos experimentados. Pois bem...isso é perceber que o que está a dar é tudo menos trabalhar.

Constato eu que, nestas lides que escolhi como minhas, o ócio faz mais pelas carreiras do que o melhor dos desempenhos. De que forma? Eu explico: só mesmo com muito tempo livre se consegue seduzir e fidelizar as superiores hierarquias, a ponto de hipnotizá-las para injustificadas progressões e distraí-las de incumprimentos grosseiros.

E que incumprimentos são esses? Olho para o meu odiado chefe e encontro no 'profissionalismo' do dito algumas respostas: falta dias e dias como se nada fosse; não produz uma única linha de pensamento; confunde realidade com familiaridades; atrapalha quem trabalha e, cúmulo dos cúmulos, ainda se queixa!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Guess what?



O ‘amigo’ não sabe o que faço no meu cada vez mais penoso esforço para ganhar a vida. Ele não sabe mas insiste em saber. E como não quero satisfazer-lhe a curiosidade, vejo-o percorrer às cegas um labirinto de incessantes adivinhações. De palpite em palpite, espantam-me as profissões que, à primeira vista, lhe pareceram estar à minha imagem:

  • Advogada

  • Investigadora criminal

  • Enfermeira

  • Professora do secundário

  • Engenheira do ambiente

A metamorfose de uma doença

O primeiro nome que ouvi transportou-me os pensamentos para um aviário pouco antes de os estacionar numa pocilga. Já desviada das memórias da gripe das aves (ou aviária) começo a aterrar nos sintomas da gripe dos porcos (ou suína) quando me apercebo da ‘exporcação’.

Num fenómeno típico de notícias que prometem desenvolvimentos atrás de sequelas, chega a primeira variação: como os sinónimos dão sempre jeito, por que motivo não nacionalizar a doença? Gripe mexicana, por supuesto!

Não! Esperem! Afinal não estamos despachados. Os sintomas também podem resumir-se numa febre (seja suína ou mexicana), e ainda podemos dar ciência à coisa, tratando a gripe pelo vírus que os especialistas exigem. Chegamos então ao H1N1, vírus que na versão alargada deve tomar-se por A-H1N1, embora na versão resumida regresse ao mais sensaborão dos registos: gripe A.

E como uma novidade nunca é demais, ainda vamos a tempo de ouvir o ilustre entendimento dos excelsos ministros da Saúde dos 27. Porcos? Qual gripe suína qual quê. Vírus? Qual gripe A qual carapuça. A grande novidade está mesmo na novidade: dizem os ministros da UE que estamos perante o quê? Uma nova gripe! É então que me ponho a pensar na dificuldade que tiveram para incubar esta definição. Por pouco não lhe chamaram nova doença, não?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Just because



A combinação era esta: assim que o meu olhar se travasse de boas razões com outro olhar apertava a mão da minha recém-conhecida amiga, e, em dupla, faríamos um approach ao estilo do 'segredo' daquele Estado.

«Aqui na Bahia tá valendo a quantidade e não a qualidade». Enquanto os meus lábios sorriam para as palavras da minha recém-amiga, os meus ouvidos sintonizavam bem alto a voz da Carla Visi: «Já beijei um, já beijei dois, já beijei três/ Hoje eu já beijei/ Vou beijar mais uma vez».

A combinação era mesmo aquela, mas o capeta bebível que possuía a minha lucidez baralhou-me os sentidos. Ignorei por isso o protocolo, e, alheando-me dos apertos de mão, soltei toda a minha baianidade. Já que tava valendo a quantidade, naquela noite de Bahia eu fiz mais do que dançar ao refrão da banda cheiro de amor.

Para começar foi um mineiro (mas nada de confusões com o pessoal da extracção). Depois saiu-me um british importado das Índias e, qual cereja em cima do bolo, encerrei a noite com um bahiano arretado. Mais noite, menos noite, foi a partir daí que me tornei uma exploradora convicta dos beijos aleatórios, embora continue a preferir os clássicos que me aceleram o fôlego das paixões.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

É a crise!


Deve ser a canonização mais rápida da história. Santa antes sequer de chegar a beata, vejo desencaixarem-me da minha comum mortalidade à revelia dos mais rígidos ditames do Vaticano. Penso então que só pode ser efeito da crise: à falta de melhor, até os pecadores inveterados conseguem chegar a santos. A mim bastou-me enviar três ou quatro sms’s para receber o altar: «És uma santa», afiançaram-me.

Santa? Eu? Sim. Confirma-se que a humanidade anda mesmo a atravessar uma crise…Vai daí, qualquer ser capaz de corromper o mais insignificante dos vícios arrisca cair num poço de virtudes. Eu arrisquei ao virar da saída de uma casa de banho.

De olhos pregados no chão, para evitar um embaraçoso tropeçar de pernas, não o reconheci ao primeiro golpe de vista. Por isso aproximei-me para ver melhor e, sem mais demoras, baixei-me para o agarrar. Estrategicamente acomodado na bota esquerda, passou o resto da madrugada a combinar com o já instalado parceiro da bota direita.

Só me lembrei dele horas depois, já nos pés do leito, enquanto me descalçava à luz do amanhecer. Mas não era momento de fazer mais do que dormir. Dura de cansada, acabei por cair na cama até ao estranho soar do meu acordar. Ainda que irreconhecível aos meus ouvidos, o toque despertou-me para a missão de devolução.

Pego então no telemóvel que deixava de tocar, vasculho a lista, descubro o telefone de casa, tento um contacto, mas o número não está atribuído. Continuo por isso a vasculhar, encontro as últimas ligações, envio sms's e finalmente combino a devolução do achado que eu não queria roubado. Incrédula, a dona do telemóvel fica sem palavras para me agradecer, a amiga chama-me santa e eu continuo a surpreender-me com as baixas expectativas que guardamos uns dos outros. Por isso faço questão de dar de mim sempre mais.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A diferença



Faço vénias. Faço o pino. Grito vivas. Por uma boa ideia eu celebro com tudo.

E não é que me andam a surpreender? Depois da bela iniciativa de se acoplarem durante um ano à rotina desgastante do desemprego, eis que chegam às bancas com uma edição à moda de Salazar.

Estou rendida. Apaixonada. Deliciada. Definitivamente, pensar faz toda a diferença.