segunda-feira, 15 de junho de 2009

Reflexões profundas no regresso de férias


Olhei para a imagem ampliada à distância. Já de perto, retive a mensagem, que, mais coisa menos coisa, vendia isto: «Só nós conseguimos (ou podemos??) comer uma bucha». Então voltei a olhar para aquela figura e, a muito esforço, procurei reconhecer ali semelhanças com uma baguete. Acontece que por muito que fixasse o olhar no fiambre e no queijo que confeccionavam a imagem, o raio da bucha não me transportava para o interior de uma caixa de ferramentas e menos ainda para o escaparate de uma companhia das sandes. Acabei então por desistir do reconhecimento, e, admitindo uma certa perversão da minha mente, quando hoje cedo me deparei com a publicidade do Master Card só consegui pensar naquele falo que de conjugação verbal não tem nada.

Reflexões profundas em tempo de férias





Crise, desvalorização ou ajuste de mercado?

Primeiro vejo o filho abdicar do apelido, dizendo que nem sequer pensou nisso, mas lembrando que o nome próprio, desacompanhado, fica melhor na capa do álbum. Depois vejo o pai na televisão, apresentando, a cada pausa publicitária, aquela que parece ser a promoção do ano. É então, que, num clássico raciocínio de férias assalta-me a interrogação: o apelido Carreira descapitalizou-se? Entrou em época de saldos? Ou atingiu o seu real valor?

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Digestivo




É verdade que ando roída dos nervos (o meu sobrolho esquerdo, que tem latejado a bandeiras despregadas, não me deixa mentir), mas não é menos verdade que amanhã entro de férias. Yuuuuuppppppyyyyyy! Vou ter uma semana do meu melhor tempo (livre, claro está) para digerir os diversos espécimes de sapo-elefante* que me têm engasgado os dias. Tchim-tchim!

*espécie que tem no mercado laboral terreno fértil de incubação

Pára! Arranca!

Quanto mais penso nisso, mais vejo que nunca pensei tão seriamente nisso. O que me fez arriscar uma profissão nisto? A única certeza que tinha era a de que o trabalho administrativo era demasiado rotineiro para mim. Então limitei-me a fazer o processamento disso e acabei por me deixar hipnotizar pela possibilidade de viver da escrita, que é a coisa mais aproximada de uma vocação que identifico na minha vida. Acontece que ao fim de seis anos sinto-me esgotada. Pelo enervante pingue-pongue de editores, pela desgastante maratona de contactos e pelo angustiante triatlo de insuflados egos, pedantismos pseudo-intelectuais e autismos conceptuais. Agarro-me então à crença de que tem de haver mais qualquer coisa para mim. Ainda não sei bem o quê, mas vontade não me falta de explorar novas oportunidades. Por isso vou rodar a baiana até descobrir o meu merecido lugar. Para começar, acho boa ideia inscrever-me num gingado destes:

Para a frente é o caminho

Auto-ajuda




Eu, intolerante crónica à acefalia, assumo a absoluta necessidade de postar aqui alguns dos meus ‘pequenos tudo’ com a derradeira esperança de que a sua escrita e posterior leitura me mantenham anestesiada das dores de lavor que me têm atormentado.

- não posso mandar o chefe para o c****** porque preciso do salário para pagar a renda, a água, a luz, o gás e toda a carrada de contas que a independência cobra.

- não posso mandar o chefe para a p*** que o pariu porque preciso do salário para financiar os meus projectos de diversão nocturna, os meus fins-de-semana de providencial retiro e as viagens de voo económico.

- não posso mandar o chefe f****** porque preciso do salário para atribuir algum sentido, ainda que financeiro, ao facto de continuar num projecto que acabou por se descaracterizar.

- não posso chamar o chefe de filho da p*** porque preciso do salário para pagar as quotas do Benfica, que, by the way, andam bastante atrasadas.

- não posso chamar o chefe de c***** do c****** porque preciso do salário para manter a ilusão de que algum dia próximo desta vida vou descobrir o que é um aumento salarial.

- não posso mandar o chefe ir chatear a p*** da mulher dele porque preciso do salário para ter a possibilidade de, de quando em vez, ceder à futilidade de um consumo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Noutros tempos

Era preciso alguém para ter piada. Podia ser um colega de escola, um dos vizinhos do lado ou até uma companhia de ocasião. Podiam ser todos e mais alguns, porque quantos mais fossem maiores seriam as probabilidades de diversão.

Às vezes, também era preciso improvisar para ter piada. Podia ser nas receitas fictícias, confeccionadas a partir de areias, ervas e flores. Podia ser na magicação de tropelias, experimentadas ao ritmo de tropeções e correrias. Podia ser na simples imitação de bizarrias, infantilmente retalhadas dos concursos de televisão. Podia ser tudo isso e muito mais, porque quanto mais improvisássemos maiores seriam as probabilidades de diversão.

Houve ainda momentos em que era preciso desobedecer para ter piada. Podia ser no chupar das bacterianas azedas, no explorar de caminhos maternalmente interditados, ou no ignorar de perigos intuitivamente reconhecidos.

Simplesmente era preciso brincar. Hoje parece que apenas é preciso ocupar os tempos.