Dali não há ‘pitosguice’ que me comprometa. Vê-se tudo com tamanha nitidez que achei-me algures numa daquelas afamadas transmissões em alta definição, ou HD para os mais amigos. Olhava para a frente e sentia-me capaz de tirar as medidas ao meu arcanjo David. Ai, o quanto eu sou enamorada por aqueles cachos capilares… Olhava para o lado e via o meu querido Presidente ladeado por um dos meus Lobos de eleição. Ai! O quanto eu gosto de remoer escritos de angustiada reflexão.
Virava e revirava a cabeça em busca de outros notáveis, quando inadvertidamente me encontro a lançar a intriga no cérebro da minha abismada chefia (‘como é que conseguiste este lugar?’). Para baralhar ainda mais as hierarquias, meti conversa com gente de Direcção na Saúde, acerquei-me de ministros estrangeiros, troquei impressões de ocasião com empresários ainda sem face oculta, desfilei um pouco da minha vaidade pelo momento, e, revistas as modas, só lamentei o comedimento das reacções.
Nem ***alhos, nem **da-ses, nem **** que o pariu. E eu ali, socialmente correcta, a reprimir as minhas falas praguejadoras e a semi-invejar a sorte dos que lá em baixo cantavam, insultavam e abusavam de um futebolês acirrado por quase hora e meia de insistências. Completamente ‘implodida’ de nervos, só aos 89 minutos tive a minha grande oportunidade de explodir: GOOOOOOOLLLLOOOOO. Entre abraços e cumprimentos, distribuídos pela família benfiquista no meu perímetro, comemorei a queda da muralha naval e, de um rasgo, invadiu-me a pedante certeza de que alcancei um dos pódios da minha carreira de adepta.
E, para completar ainda mais a minha consagração, desta vez, ao contrário do que aconteceu no caso do envelope, não senti olhares de julgamento moral. Desta vez, sentar-me na tribuna presidencial do meu Glorioso Estádio iluminou de tal forma o meu ser que a experiência já se projectou no meu estado laboral. Parece que agora sou uma trabalhadora de invejado gabarito social.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
Má fama

Dá para os dois lados. Ou ficam com a mania de que são irresistíveis, ou revelam as prudências dos que sabem que são mais apetecíveis. Sinto isto de cada vez que os encontro pelos meios que não lhes são exclusivos. Actores, pseudo-profissionais da bola, músicos, modelos…já me cruzei com tantas e tantas caras de méritos meramente mediáticos, que não lhes consigo reconhecer um carácter especial. Mas sei-os diferentes e confirmo a diferença no enxame de olhares e presenças que os cerca a cada aparição. Por isso comecei por ignorar o toque quando ele passou por mim. Por isso deixei-o olhar-me e comentar-me sem lançar-me às negociações. Por isso demorei uma noite inteira numa corte de danças e de fitares. Por isso travei os meus impulsos quando tudo o que mais queria naquele momento era avançar. E, por mais que tudo, desejei desligar o efeito de uma televisão sobre nós.
Sozinha, mas bem acompanhada
Fui com as expectativas diminuídas pelo antecipar do encerramento, mas, logo à chegada, animaram-se-me as perspectivas. Vi o descampado de carros composto, observei grupos em alinhamento para a entrada e revivi um cheirinho dos meus primeiros tempos naquela plateia. Apesar da chuva de irritação miudinha, dos sérios riscos de palpitares involuntários e das contingências dos planos de trabalho, a noite punha-se deliciosamente perfeita para a festa. E eu ali, sem outras combinações de resposta que não uma companhia de curto prazo. Então insisti nas comunicações.
SMS para lá, nada de confirmações para cá…e, às 2 e picos constatei que todos me falharam até acabar ali sozinha. Rodeada de desconhecidos, à conversa com um e outro candidato a meu não sei o quê, e parada em cruzamentos com mãos cheias de conhecidos, alegrei o mais que pude a minha despedida daquele acontecimento. Vai fazer-me falta a festa, pá!
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Festa privada
Sempre privilegiei o emocional ao físico porque sou um ser de espécie sentimental. Do tipo de me agarrar às pessoas de modo irreversível, e também de me afastar de forma irreconciliável. Mas se por um lado não sinto qualquer dificuldade de enlaçar-me a novas amizades, por outro reconheço que nunca consegui ligar-me facilmente às minhas pessoas-metade.
Então carrego, por pequenas eternidades, vazios passionais que vou preenchendo com estímulos ocasionais de prazer. Isto sem que tenha de prescindir da humanização, ainda que superficial dos contactos. E, como nunca senti a ausência física desses contactos, nunca senti a necessidade, e nem sequer a curiosidade, de experimentar uma via artificial. Nunca até hoje, dia em que o trabalho me rendeu a oferta de um pequeno brinquedo vibrante.
Então carrego, por pequenas eternidades, vazios passionais que vou preenchendo com estímulos ocasionais de prazer. Isto sem que tenha de prescindir da humanização, ainda que superficial dos contactos. E, como nunca senti a ausência física desses contactos, nunca senti a necessidade, e nem sequer a curiosidade, de experimentar uma via artificial. Nunca até hoje, dia em que o trabalho me rendeu a oferta de um pequeno brinquedo vibrante.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Afluentes e tais*
O meu coração parou naquela mensagem. Com a caixa de entrada escancarada, enfrento a pergunta da inquietação: «Estás sentada?». Como estava deliciosamente aninhada sobre as minhas cada vez mais esporádicas aventuras literárias, assumi o risco cardíaco de continuar a leitura. Toda eu coração em ponto de manteiga, quase me atropelei com as palavras do meu instantâneo sobressalto: «Uma amiga da N. ‘limpou o teu Rio’!»Incrédula com o conhecimento dela sobre o nome que nunca partilhei dele, gelei até às estopinhas antes de, por fim, conseguir recuperar a lucidez: Rio Ferdinand! Sim. Era do Ferdinand de que se falava.
*conto de uma noite de Verão
*conto de uma noite de Verão
domingo, 1 de novembro de 2009
Os laços e os nós
Antes ainda de acabar, já me bastou. O drama, que nem a maior sensibilidade do mundo consegue alcançar sem vivenciar, percorre o ecrã da minha LG sem que eu veja nele o principal dos dramas. Não é o facto de as famílias colapsarem e de haver tantas e tantas crianças institucionalizadas que mais me perturba. Ao olhar para as imagens, senti-me incomodada com a falta de limites, com o ‘vale tudo’ que a pretensa necessidade de informar insiste em propagar.
Como é possível entrevistar-se miúdas de oito, 12, 15 ou 16 anos, explorando-se-lhes os mais enegrecidos traumas? Como é possível confrontá-las com os demónios que desde cedo as acompanham, e que a instituição que as acolhe deveria fazer por exorcizar? Tudo isto sem reservas de identidade, sem aparentes preocupações com a sua ‘especialidade’, tornando-se aflitivo vê-las recalcar, de frente para uma câmara de televisão, angústias de uma infância e de esperanças perdidas. Seja nos olhos ‘descaídos’ de uma, nas lágrimas travadas de outra, ou nos sorrisos constrangidos e descontextualizados dos entristecidos discursos…
Tudo na forma como se formatou a presumida grande reportagem levou-me a rejeitá-la aos primeiros planos e a desejar o indesejável: a intervenção de uma entidade esotérica, também conhecida pelo nome de ERC.
Como é possível entrevistar-se miúdas de oito, 12, 15 ou 16 anos, explorando-se-lhes os mais enegrecidos traumas? Como é possível confrontá-las com os demónios que desde cedo as acompanham, e que a instituição que as acolhe deveria fazer por exorcizar? Tudo isto sem reservas de identidade, sem aparentes preocupações com a sua ‘especialidade’, tornando-se aflitivo vê-las recalcar, de frente para uma câmara de televisão, angústias de uma infância e de esperanças perdidas. Seja nos olhos ‘descaídos’ de uma, nas lágrimas travadas de outra, ou nos sorrisos constrangidos e descontextualizados dos entristecidos discursos…
Tudo na forma como se formatou a presumida grande reportagem levou-me a rejeitá-la aos primeiros planos e a desejar o indesejável: a intervenção de uma entidade esotérica, também conhecida pelo nome de ERC.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

