Todos os dias sou testemunha de violações continuadas da língua portuguesa simplesmente porque ando de transportes públicos, circulo pela world wide web, vejo televisão e leio jornais. Não tenho por isso como escapar às emboscadas de erros ortográficos, atropelos de gramática e tantos outros desvios de linguagem. Imagino então o sonho que seria poder denunciar os abusos e ver os infractores cumprirem penas de educação. Até lá, deixo-me arrepiar com os exemplos asneirados que se encontram no protesto asneirento contra o fosso do canal Q.
«Pelo que se rejam os jornalistas»
Talvez tenha sido um atropelo de concordância, mas, na dúvida fica a correcção: por que se regem os jornalistas.
«Um programa por voçês emitido»
E, cá está: um dos erros mais recorrentes entre posts de Facebook - vocês com cedilha?! Céus!
«Apesar de não haver lesões ouve feridos e com isso não se brinca»
Com os feridos que houve não se metam, agora com o português estão à vontade, brinquem. Aqui que ninguém nos ouve!
«Vcs é que deviam cair no foço»
E quem diz fosso pode bem querer dizer poço.
«Tou-ma a cagar se é humuristico»
Estou com extrema dificuldade de perceber a lógica da cagada inicial da frase mas entendo perfeitamente que humor não é humur!
«enusitado»
Inusitada é a tentativa de juntar ao protesto palavras inesperadas.
«O pedido de desculpa vos acenta bem»
Assentou melhor ainda o facto de ter sido redigido em português.
«E A CIMA DE TUDO AO CAPEL»
Há quem prefira estar acima em vez de ir abaixo.
«Os benfiquistas gostam de ser enxovanhados»
Pois, enxovalhados é que não!
«conosco»
À falta de um português básico, venha de lá esse espanhol de ocasião.
«Aconcelho a lerem a carta dos direitos humanos»
Deixa estar, se for para escrever assim venha de lá outro conselho.
«Alguém sabe onde é os estúdios?»
Sei onde são os estúdios, mas aviso já que é um caminho com plural.
«Tem algum jeito ter fossas num estádio?»
Fossas? Está bem visto, afinal aquilo é o WC.
«Pequenos que apareçem numa televisão»
Aparecer na televisão não dá direito a cedilha, ok?
«vai poupando pra vazelina que estás a seguir!!»
Ameaças anais com vaselina é outra coisa.
«VAMOS GOZAR COM O TEU PRESIDENTE DE MERDA QUE IA MORRENDO A UNS DIAS ATRAS»
Pode estar a uns dias de morrer, futuro, mas se tivesse morrido, passado, teria sido há uns dias.
«Sendo estes dois apresentadores conciderados humoristas»
Confesso que fico siderada com estas considerações.
«Isto só lá vai é com um boicote há meo»
Com um boicote destes à correcção linguística é que isto não vai lá!
«Vão gosar»
A sério? Só pode ser gozo.
«Agora ficam a falar sozinhos...chatiçe»
De facto, deve ser uma chatice ficar a falar sozinho quando se tem a opção de comunicar com gente que não sabe escrever.
Quanto ao caixa de óculos, ainda estou sem perceber, mas cheira-me a esquizitofrenismo, pois é um tipo bué esquezito»
Esquizitofrenismo, variação rara de gente esquezita ou esquizita? Seja o que for, reconheço que é bué esquisito.
«Como de custume»
Custume? Oi? Será tique de quem tem o costume de escrever com o cu?
«VOÇES NÃO VALEM UM CARA******* DEI-EM SE AO RESPEITO»
E de novo o must do você cedilhado, acrescido de uma dádiva incompreensível: dei? em?
«Fuder»
Quem foi que disse que todos sabem foder?
«Badalhoquiçe»
Ai, maldita cedilha.
«Deviam ser despensados imedietamente»
Nem mais, assim como quem é enfiado numa despensa e tem dispensa do trabalho. Imediatamente.
«Siguam o seu concelho»
Sigam vem de seguir é isso? Ah! Deve ser por isso que tem ali um U atravessado. O que dizer, então, de quem segue o conselho com C?
«ainda espetao aqui a porra da fotografia dos homens e veem aqui dizer que é "um programa de entertenimento" ????? nunca vi nem faço tensoes de ver esse canalzeco se quisessem acalmar isto apagavam a porra dos postes»
Com o devido desconto para a falta de acentos, está visto que nem a copiar a malta se entende. É entretenimento, pessoal, não é um momento nascido da tecla enter, ok? Estarão vocês a sofrer com as tensões do momento, será? É por isso que vêm para aqui escrever enormidades destas? Eu é que não faço tenções de descobrir, porque com postes apagados ainda me espetam para aqui umas cenas ou atacam-me aos posts.
«gostava que os "mitras" a apanhacem na rua !!!»
E eu gostava que os senhores da educação apanhassem e sancionassem todas estas infracções
«mais tarde ou mais cedo terão na vida o que mereçem»
Ai, língua portuguesa, tu é que não mereces isto!
«humor fazia o herman com o tal canal, a herman inciclopédia»
Inciclopédia? Tipo a enciclopédia dos ignorantes?
«mas hj abro uma excessão para ti. Agora deixa-te la de choradeiras e diz me lá onde é que eu te ameaçei! Injúria e calunias são poniveis por lei, cuidado!
E voltámos à lógica do verbo seguir, desta vez derivada das ameaças. Se ameaço com cedilha, por que não dizer que ameacei também com cedilha? Ai, é sem cedilha? Será regra ou será excepção? Seja o que for, pena ainda não ser punível por lei.
«Não custa comentar assim e consegue manter o sentido prático da discução!» -
E assim pode começar-se mais uma discussão, agora sobre ortografia.
«Estão mesmo para partir para a estupides força!»
Eu estou mesmo para puxar do sotaque francês: estupides em vez de estúpidos sofistica a estupidez, será isso?
Ai, língua, língua...
sábado, 12 de novembro de 2011
Assim vão os protestos neste país
Há problema? És gaja? Então és uma puta, preferencialmente de merda. Se a coisa puxar para os genes, também podes ser uma filha da puta, miminho que dá para os dois lados. Cabrão também se ouve, mas para um cabrão ser como deve ser é do caralho. Cabrão do caralho, leia-se. O resto impõe-se por defeito: a puta, os filhos da puta e os cabrões do caralho merecem todos ser sodomizados ou, melhor, enrabados e fodidos, porque não convém elevar o tom da conversa. Mas atenção: se forem gajas é bem provável que até gostem, porque, já se sabe, mesmo sendo putas e filhas da puta andam todas mal servidas. Quanto mais leio, ouço e vejo, só consigo encontrar manadas (sim, isto é um insulto) de pretensos indignados transvestidos de virgens ofendidas, mas tão-somente obcecados com sexo. Do mau, claro.
Humores da semana
Cliquei para a confusão através de uma actualização de amizades no Facebook: amiga minha comentava post de amigo dela cascando numa amiga nossa. De curiosidade em pé, cheguei a isto: um vídeo de uma rubrica de um programa de televisão transmitido num canal de humor. Sei que é suposto ter piada, mas como não achei graça nenhuma não me ri. Apenas isso e nada de novo porque não foi a primeira e dificilmente será a última vez em que mumifico diante de uma graçola. Hoje sobre futebol, ontem sobre o Angélico e o Carlos Castro e amanhã..quem sabe? Talvez o Benfica.
Tudo bem que algures aí nesse vídeo reconheço uma pontinha de criatividade, mas confesso que não vejo mais nada. Por isso da mesma forma que não compartilhei o espírito trocista das piadolas sobre o crime de Nova Iorque nem sobre a agonia do ex-moranguito, acho excessiva a exibição de dois corpos em modo cadáver como acompanhamento de trocadilhos de fosso.
Não gosto, não me faz rir, mas seja de pior ou melhor gosto continua a ser humor. Não é jornalismo, entenderam? Então reclamem, indignem-se e o diabo, mas não baralhem os azeites. Já agora, se se sentem tão ofendidos, que tal manifestarem-no sem ofenderem ninguém? Peçam uma intervenção do vosso clube - já que insistem em dizer que foi vergonhosamente desrespeitado - accionem os serviços de um consócio jurista, apresentem denúncia na esquadra mais próxima e sei lá mais o quê. Façam e aconteçam mas sejam crescidinhos. Porrada e morte para quem fez a piada? Despedimento com justa causa? Tudo isto entre carradas de insultos em mau português? Por favor, não batam tão fundo no vosso fosso.
Tudo bem que algures aí nesse vídeo reconheço uma pontinha de criatividade, mas confesso que não vejo mais nada. Por isso da mesma forma que não compartilhei o espírito trocista das piadolas sobre o crime de Nova Iorque nem sobre a agonia do ex-moranguito, acho excessiva a exibição de dois corpos em modo cadáver como acompanhamento de trocadilhos de fosso.
Não gosto, não me faz rir, mas seja de pior ou melhor gosto continua a ser humor. Não é jornalismo, entenderam? Então reclamem, indignem-se e o diabo, mas não baralhem os azeites. Já agora, se se sentem tão ofendidos, que tal manifestarem-no sem ofenderem ninguém? Peçam uma intervenção do vosso clube - já que insistem em dizer que foi vergonhosamente desrespeitado - accionem os serviços de um consócio jurista, apresentem denúncia na esquadra mais próxima e sei lá mais o quê. Façam e aconteçam mas sejam crescidinhos. Porrada e morte para quem fez a piada? Despedimento com justa causa? Tudo isto entre carradas de insultos em mau português? Por favor, não batam tão fundo no vosso fosso.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
A atirar para os céus
Três amigas, um avião, programinhas low cost para gozar e entreter e, de repente, 2012 já vai dando um ar da sua graça. Qual é a rota qual é ela que começa com som de rato e acaba a tragos de uma demarcada região?
domingo, 30 de outubro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
A justiça do povo
Não sei de onde veio o raio da miúda, mas quando dei por mim a tentar entrar para o 714, depois de uns dois minutos na paragem (ai Lisboa, que és tão boa) sou ultrapassada pelo raio da pita. Eu de ipod nos ouvidos, apenas mais uma pessoa à espera e, instintivamente, lá agarrei a catraia pelo braço para lhe dar umas palavrinhas de civilização. Nada de especial, coisa básica. Do tipo : ‘isto não é chegar e entrar, espera pela tua vez e depois entras’. Ela saiu-se com um pardon um tanto ou quanto estranho para quem parece ter percebido cada sílaba do que eu disse, e um tanto ou quanto estranho para quem não tinha a mínima pinta de camone 'das Franças'. Mas como quem vê caras não vê corações, deixei a impressão por isso mesmo e segui em busca de um lugar sentado.
Uma paragem depois, já no Cais do Sodré, apercebo-me de um sururu mais sonoro do que o meu ipod. Silencio a música e, entre acusações de assalto, vejo a miúda do pardon correr dali para fora e em pouco mais do que um virar de cabeça desaparecer na confusão de carros e peões. Continuo sem perceber nada, até que, lá dentro, vejo as atenções se fixarem numa outra miúda. Apenas a ouço barafustar com o motorista agarrada à mesma frase: «Você viu perfeitamente que entrei em Santos». Era verdade.
Reconheci-a dos meus dois minutos de espera na paragem mas continuava sem compreender de que raio estava a ser acusada nem em que medida entrar em Santos servia de álibi para o que quer que fosse. E o 714 ali, sem mexer uma roda. E a miúda sobrante também ali, a despejar palavras de indignação contra palavras de acusação. Acho que ficámos nisto uns intrigantes cinco minutos até a geringonça da Carris retomar a sua marcha.
De novo em andamento, a miúda sobrante faz-se ouvir, gritando pelos compromissos do dia que, àquele ritmo de viagem, lhe prometiam atrasar a chegada a uma entrevista de emprego. Pouco depois, curiosamente, também ela desaparece, embora sem a espectacularidade da corrida da suposta camone: limitou-se a sair na estação de Corpo Santo. Deito o meu olho para a figura dela e desconfio: quem é que vai a uma entrevista de emprego com a barriguita ao léu?
Estranhei, mas depressa abstraí-me da improbabilidade até que, já na iminência da minha descida, o 714 faz uma nova paragem. Agora à porta da esquadra da PSP da Praça do Comércio, de onde saem uns quatro agentes em direcção ao motorista. Para quê? A pergunta anima uma conversa a três que à minha direita percorre dois bancos. Entre um ‘vê-se bem que as duas raparigas estavam combinadas’ e outro ‘está-se mesmo a ver que a miúda só saiu antes porque ouviu o motorista comunicar com a polícia’, detenho-me num perturbante sentido de justiça.
«Não há direito! Ainda se fossem roubar quem não precisa…». Deduzo então que o mal não está no crime nem no criminoso, mas sim na vítima.
Pardon?
Uma paragem depois, já no Cais do Sodré, apercebo-me de um sururu mais sonoro do que o meu ipod. Silencio a música e, entre acusações de assalto, vejo a miúda do pardon correr dali para fora e em pouco mais do que um virar de cabeça desaparecer na confusão de carros e peões. Continuo sem perceber nada, até que, lá dentro, vejo as atenções se fixarem numa outra miúda. Apenas a ouço barafustar com o motorista agarrada à mesma frase: «Você viu perfeitamente que entrei em Santos». Era verdade.
Reconheci-a dos meus dois minutos de espera na paragem mas continuava sem compreender de que raio estava a ser acusada nem em que medida entrar em Santos servia de álibi para o que quer que fosse. E o 714 ali, sem mexer uma roda. E a miúda sobrante também ali, a despejar palavras de indignação contra palavras de acusação. Acho que ficámos nisto uns intrigantes cinco minutos até a geringonça da Carris retomar a sua marcha.
De novo em andamento, a miúda sobrante faz-se ouvir, gritando pelos compromissos do dia que, àquele ritmo de viagem, lhe prometiam atrasar a chegada a uma entrevista de emprego. Pouco depois, curiosamente, também ela desaparece, embora sem a espectacularidade da corrida da suposta camone: limitou-se a sair na estação de Corpo Santo. Deito o meu olho para a figura dela e desconfio: quem é que vai a uma entrevista de emprego com a barriguita ao léu?
Estranhei, mas depressa abstraí-me da improbabilidade até que, já na iminência da minha descida, o 714 faz uma nova paragem. Agora à porta da esquadra da PSP da Praça do Comércio, de onde saem uns quatro agentes em direcção ao motorista. Para quê? A pergunta anima uma conversa a três que à minha direita percorre dois bancos. Entre um ‘vê-se bem que as duas raparigas estavam combinadas’ e outro ‘está-se mesmo a ver que a miúda só saiu antes porque ouviu o motorista comunicar com a polícia’, detenho-me num perturbante sentido de justiça.
«Não há direito! Ainda se fossem roubar quem não precisa…». Deduzo então que o mal não está no crime nem no criminoso, mas sim na vítima.
Pardon?
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